O acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul foi oficialmente assinado no dia 17 de janeiro, em Assunção, Paraguai, após 26 anos de negociações. Conheça a opinião de Guilherme Athia, especialista em assuntos institucionais do Brasil e com sólida experiência na Europa, sobre o impacto nas empresas exportadoras dos dois lados do Atlântico.
A cerimónia contou com a presença da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen e do presidente do Conselho Europeu, António Costa, e teve como signatários os representantes dos países do Mercosul, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, e o comissário europeu de Comércio, Maros Šefčovič.
O pacto abre um mercado conjunto de mais de 700 milhões de consumidores, permitindo a eliminação gradual de tarifas para 91% das exportações da UE para o Mercosul e 92% das vendas sul-americanas para a Europa. Os dois blocos, que somam 31 países e representam cerca de um quarto da economia mundial, poderão reduzir ou eliminar tarifas para aproximadamente 90% de suas importações e exportações.
O setor agropecuário do Mercosul será um dos principais beneficiados, enquanto a indústria europeia ganha acesso a um mercado historicamente fechado para produtos como equipamentos elétricos, máquinas e automóveis.
Guilherme Athia, especialista em Decisões Institucionais, explicou em entrevista à Media em Movimento que “cada país que aprova, entra no acordo. Há uma complementariedade muito grande de países industrializados europeus. Por exemplo, Alemanha, Itália, França, Suécia, Dinamarca”.
No caso do Brasil, estes países já investem quantias significativas e mostram grande interesse em áreas como máquinas, automóveis, produtos farmacêuticos e químicos, setores que são especialmente atrativos para as suas economias. “São setores bem interessantes para esses países”, comentou Guilherme Athia.
Além disso, “no caso da Itália, agrega também a exportação de produtos alimentares e de alto valor agregado. Que são muito bem aceites pelo Brasil, que tem uma cultura italiana muito forte. Para além, obviamente, de automóveis e máquinas, moda, design, mobiliário, etc”.
Produtos de origem demarcada
O agronegócio brasileiro poderá ganhar destaque no novo acordo comercial com países europeus, mas com limites claros. “Já pelo lado do Brasil, o que se sabe é que há interesse muito grande do ponto de vista do agronegócio brasileiro, mas há cotas, quer dizer, não será uma invasão de produtos brasileiros aqui (na Europa)”, afirmou Guilherme Athia.
Alguns produtos brasileiros passam ainda a ter proteção especial, o que lhes garante reconhecimento internacional. “Alguns produtos são bem interessantes de serem analisados, porque eles passam a ter denominação de origem controlada, por exemplo, a cachaça brasileira, a aguardente de cana de açúcar feita no Brasil. É um produto que passa a ter essa característica, como o champanhe, que só pode ser feito na região de Champanhe, em França. Ou como o queijo o parmesão, na região de Parma, etc.”
Em Portugal, existem vários exemplos desta proteção, o que representa uma oportunidade para os produtos brasileiros. “Aqui em Portugal há vários e tem uma característica interessante para o produto brasileiro. Apesar de ser uma indústria em crise, mas em um momento decisivo, bebidas alcoólicas, principalmente as destiladas, podem perder muito mercado”, acrescentou o especialista.
Para Guilherme Athia, o acordo surge no contexto de uma reorganização do multilateralismo e das políticas comerciais dos Estados Unidos. “O que acontece é que esse acordo nasce muito em função de uma reorganização do multilateralismo e das políticas de comércio dos Estados Unidos. Então, um acordo que vinha sendo prorrogado, acaba que se tornou urgente, vamos dizer assim, para os dois lados do Atlântico. Então, foi assinado, agora passando pelos dois parlamentos e vai ser implementado.”
Guilherme Athia considera que o acordo trará benefícios a longo prazo. “Eu acho que nós estamos só no começo, é acordo gigantesco, extremamente complexo, bastante assíncrono e parabéns aos negociadores dos dois lados do Atlântico pela sua conclusão. Acredito que haverá muito mais benefícios do que desafios nesse primeiro momento e também no futuro, com certeza haverá muito mais estabilidade para aqueles que praticam esse tipo de atividade internacional.”
Quanto às empresas brasileiras, a expectativa é que elas consigam explorar melhor o mercado europeu, sobretudo as médias e pequenas. “Sobre as empresas brasileiras específicas, eu acredito que elas vão começar a entender pouco um mais como funciona as empresas médias e pequenas, porque as grandes já entendem bastante. Mas como funciona a União Europeia, o acordo de livre comércio vai possibilitar entrar em todos os países no mercado livre europeu. Acho que é uma oportunidade para Portugal nesse sentido também.”

